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O FUTURO DO TÊNIS E DA GLOBALIZAÇÃO
Ronaldo Mota Sardenberg*


Duas recentes entrevistas estimularam de diferentes maneiras a atenção dos leitores. O campeão Pete Sampras (FSP, 25/6/97) definiu com nitidez os rumos e perspectivas do tênis. Disse ele: "Hoje existe mais ciência na preparação do tenista. A informação é mais rápida, vivemos na globalização de todos os setores. A geração atual está mostrando como será o tênis do próximo século. Deve ser dominado por jogadores altos e fortes, de saque rápido, que joguem bem em qualquer tipo de quadra".

Bom seria, se no campo político e econômico encontrássemos com maior frequência essa precisão de idéias. Das palavras de Sampras, se depreende que ninguém - dentro ou fora do tênis - escapa às consequências do processo de globalização. Quem não incorporar criativamente os novos fatores da realidade, e não se preparar, estará fora da atual e inarredável competição.

A competição mundial se transforma rapidamente sob o impacto da revolução tecnológica, financeira e organizacional. Não se restringe às empresas, abarca também os países, as coletividades e as pessoas e suas atividades. A competição, enfim, é cada vez mais intensa. Isto tanto vale para o tênis, como para outras áreas profissionais.

Não são apenas o Estado e as sociedades que vêem suas fronteiras questionadas, o mesmo está ocorrendo irresistivelmente com as empresas. As pessoas são literalmente colhidas por um torvelinho. A competição acirrada penaliza fortemente as empresas que por motivos financeiros, produtivos ou de mercado perdem condições de concorrência. As falsificações de mercadorias se multiplicam, aumenta a produção de sucedâneos, acelera-se a incorporação de novas tecnologias ao processo produtivo e aos produtos finais. Rapidamente, se transforma o mercado, enquanto take-overs, às vezes hostis, levam à concentração industrial e a transformações na estrutura de propriedade

Lester Thurow, que recentemente nos visitou, também concedeu uma entrevista (FSP, 4/7/97). Dir-se-ia que nem sempre o santo faz os seus melhores milagres fora de casa. Suas respostas não foram inspiradas ou inspiradoras, limitaram-se mesmo a expressar o pensamento hoje convencional sobre o assunto.

Thurow preferiu cingir-se a caminhos arqui-conhecidos, como, por exemplo, o de relembrar que, nos Estados Unidos, enquanto um terço dos trabalhadores se beneficiam da globalização, os demais se estão empobrecendo. Que na África a situação é muito pior, enquanto na Ásia há um grupo de países que está alcançando o mundo desenvolvido e que, para os países da América Latina, o processo de desenvolvimento é marcado pela instablidade, isto é, por fases boas e más. Recorda, ainda, ser necessário mantermos a estabilidade e tornarmo-nos mais competitivos.

Thurow, para nosso espanto, não distingue no Brasil "nenhum esforço no campo educacional". Uma prerrogativa dos gurus, mesmo os econômicos, é talvez a de não lerem sobre o que passa aqui nas terras distantes, nós, porém, os lemos e tínhamos todo o direito, ou pelo menos a expectativa, de esperar mais.

Neste exercício, 40 bilhões de reias serão dedicados à educação, ou seja 6% do PIB, uma proporção que aproxima o Brasil do padrão do mundo desenvolvido.

Do ponto de vista qualitativo, não seria possível ignorar os esforços de reforma universitária, com vistas a melhorar a qualidade do ensino, de modo a tornar os formandos mais atualizados e competitivos, dos quais o "provão" é apenas a face mais visível. O mesmo se aplica à mudança do curriculum secundário, para torná-lo mais objetivo e relevante para os interesses dos estudantes, e aos esforços de treinamento à distância e de utilização das modernas tecnologias de informação, na educação básica. A crítica informada e inteligente sempre será bem recebida.

Múltiplas e fundamentais indagações estão, entretanto, há anos em pauta e é pena que o nosso visitante não as tenha iluminado. Sobra espaço para alargar a discussão sobre a globalização e os nossos interesses. Alguns exemplos parecem suficientes: como evoluirá, de hoje para amanhã, a interface da democracia com a globalização econômica ? São verdadeiramente compatíveis os princípios da representação política e da eficiência econômica ? São as práticas da democracia representativa universalizáveis - como desejamos - ou chegarão a limites intransponíveis, diante de resistências culturais e da presente crise de desencanto ? Ainda se expandirá e se aprofundará o processo de globalização ou as armadilhas da volatilidade dos fluxos financeiros e da exclusão social, entre outras, lhe serão fatais? Será o secular hiato econômico entre o Norte e o Sul superado e poderá a antítese centro-periferia ser finalmente relegada à lata de lixo ? A continuar a expansão das economias chinesa e asiáticas, transformar-se-ão elas no fulcro e no cérebro do novo sistema capitalista mundial, posição hoje ocupada pelos países desenvolvidos ocidentais ?


*Embaixador e Secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. 
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