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A esquerda e a globalização

José Genoino

 

Os partidos de esquerda, de modo geral, vêm apresentando uma posição refratária ao fenômeno da globalização. Alguns chegam a opor-se à globalização como se ela fosse uma invenção do neoliberalismo. Ocorre nisto a adoção de uma postura idealista que não consegue perceber que a globalização é um fenômeno estrutural objetivo e o neoliberalismo um programa político-ideológico que procura se adaptar a ela. Falta à esquerda o sentido da renovação e a percepção de que o mundo está passando por uma profunda revolução que atinge desde o dia a dia das pessoas comuns até as formas de existência dos Estados.

O neoliberalismo, que pauta a agenda dos líderes mundiais, privilegia os temas econômico-financeiros, as questões de segurança, do comércio internacional, das soberanias e dos blocos econômicos e comerciais. Mas é um grave erro supor que a agenda da globalização se esgota na equação segurança-economia-finanças-comérico. Acontecimentos como a Conferência de Pequim sobre a Mulher e o Hábitat II que se realiza na Turquia, são testemunhos de que a globalização abre uma imensa agenda social. Se é verdade que na Conferência Hábitat II os prefeitos do PT estão desempenhando um papel destacado, isto se deve mais aos seus aprendizados empíricos do que às orientações programáricas.

A globalização, sem anular temas da velha agenda como os da segurança e da relação entre Estados, faz surgir novos temas como desenvolvimento econômico cooperativo, direitos humanos e meio ambiente. Isto permite que não só os governos tenham um papel ativo nos fóruns internacionais, mas também que as ONGs, as entidades da sociedade civil e os partidos políticos formulem suas propostas. Ou seja, a globalização, em alguma medida, democratiza a agenda internacional abrindo espaço para novos atores. Os direitos humanos deixam de ser abordados a partir de uma perspectiva abstrata para serem vistos como direitos concretos dos cidadãos específicos de cada país. Os protestos e as cobranças que são feitas ao Brasil sobre os massacres dos sem-terra e dos meninos de rua são exemplos desta nova abordagem dos direitos humanos. Quando se discute o direito à moradia como um direito humano, também se ilustra como a globalização força a tradução dos direitos humanos abstratos em direitos concretos de cidadania.

A esquerda deve perceber que na agenda da globalização estão em confronto duas perspectivas de humanidade e que se deve tomar partido diante delas. De um lado, temos a perspetiva da competição selvagem e excludente, da migração fantástica dos capitais financeiros para onde possam realizar maiores lucros independentemente dos custos sociais, da exacerbação étnica, do particularismo e da criação de uma elite internacional beneficiária do novo padrão de desenvolvimento. De outro lado, temos a perspectiva da cooperação internacional, da democratização do acesso aos benefícios tecnológicos, da busca de soluções para os problemas mundiais do meio ambiente e da pobreza.

A segunda perspectiva, humanista e universalista, assume o ponto de vista de que a outra face da concretização dos direitos humanos é a mundialização da cidadania. Esta realidade indica que é preciso repensar a reestruturação dos organismos internacionais. É certo que os organismos de segurança internacional, de comércio etc., precisam ser reformulados e novos organismos de controle das movimentações financeiras internacionais precisam ser criados. Mas tudo indica que as questões de meio ambiente, de direitos humanos e de desenvolvimento e cooperação internacional precisam organismos coordenadores permanentes. Problemas de habitação, de direitos das mulheres, de ecologia etc., não podem ficar a mercê de Conferências mundiais que ser realizam de tempos em tempos.

Somente a afirmação de uma consciência mundial que milite em favor da perspectiva humanista e universalista e que seja assumida por movimentos sociais, por ONGs, por partidos políticos, por religiões etc., poderá traduzir-se num movimento de pressão capaz de mudar a postura cínica dos poderes econômicos e políticos mundiais que só se preocupam com arranjos seletivos, que excluem soluções efetivas para agenda social da humanidade. Acredito que assumir a agenda realista dos direitos humanos, do meio ambiente e do desenvolvimento e da cooperação internacional e um caminho de renovação do ideário da esquerda, sem cair nos velhos esquemas utopistas.

 

"Jornal da Tarde", em 08 de junho de 1996 e outros

 

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