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OS RUMOS DA POLÍTICA GLOBAL


Ronaldo Mota Sardenberg *

Ninguém escapa ou fica indiferente à globalização. Toda política hoje é direta ou indiretamente global. Não se pense, pois, que a globalização é assunto apenas transnacional, uma questão de aumento de fluxos financeiros e comerciais, assim como de recomposição dos processos produtivos e comerciais entre as multinacionais. Não, os novos processos econômicos internacionais afetam em profundidade as sociedades e as comunidades, a vida de cada homem , mulher ou criança.

Todos os países, movimentos e forças políticas estão confrontados pelas novas tendências econômicas. A disjuntiva da inclusão ou exclusão no processo contemporâneo de criação de riqueza está imediatamente presente para cada indivíduo, assim como tem impacto nos níveis local, nacional, regional e mundial.

Os grandes temas globais - a meu ver, a revisão da atual ordem internacional, o desarmamento nuclear, o desenvolvimento econômico, a exclusão social, a proteção do meio ambiente, etc. - são também temas que se colocam nos níveis antes mencionados e que, portanto, interessam a todos. A definição precisa de quais sejam esses temas e as vertentes de seu tratamento político e econômico são objeto de intenso debate e negociação.

O fim do socialismo burocrático criou as condições políticas para a inauguração de uma nova etapa na evolução do capitalismo mundial. Os paradigmas envelhecidos são descartados, antes mesmo que se pudesse ter uma idéia clara do futuro da ordem econômica mundial. A realidade mais uma vez pulou à frente da capacidade de teorização.

Quando parecia agonizar a idéia de progresso, recobraram ânimo as tendências otimistas apesar da performance econômica genericamente medíocre do núcleo central do capitalismo, as economias plenamente desenvolvidas. Onde escassas esperanças existiam - por exemplo em áreas atrasadas no mundo asiático - registrou-se uma verdadeira revolução econômica movida não apenas pelos recursos do capital estrangeiro, mas por altíssimas taxas de poupança interna.

O que se passa na Ásia tornou-se subitamente importante não apenas em Washington ou Berlim, mas em Brasília e em outras capitais no mundo em desenvolvimento. Passou a ter impacto global. A China, para dar o exemplo mais candente, parece correr na trilha que a transformará na principal potência econômica mundial antes da metade do próximo século. Quem dúvida disso e aposta na fragmentação política da China é, de todo modo, forçado a reconhecer que, há uma década, esta cresce a 10% ao ano, taxa imprevisível e que era até tida por impossível. Pode também comparar o processo chinês com a revolução econômica que ocorreu com o Japão nas últimas décadas e meditar na brutal diferença de recursos entre os dois países.

O que se passa em Brasilia e na generalidade do país é, por sua vez, escrutinado nas outras capitais e nos centro financeiros. Dificuldades internas, eventuais e tópicas que sejam, podem magnificar-se quando a ótica de seu exame é a da formação das expectativas do mercado internacional. Política e economia, pois, necessitam andar juntas,necessitam contribuir reciprocamente para a formação da estabilidade substantiva e psicológica. Paga-se alto preço, quando se fabricam crises.

Importa reter que todos os países estão de olho no futuro, em sua viabilidade e prosperidade e em seu status internacional a longo prazo. A bse de tudo isso e a estabilidade econômica e política.Conseqüentemente, os temas políticos e econômicos aparecem cada vez mais vinculados e que se torna irrealista tratá-los separadamente. Não se trata de questão de buscar prestígio à moda antiga,ou mais modernamente de criar imagem, mas de cada país preservar-se num sistema mundial e regional em mutação acelerada, preocupção que nos é particularmente relevante dadas as dimensões do Brasil.

Temos que abrir janelas, esfregar os olhos e enxergar adiante. Um novo mundo está sendo engendrado e é nosso dever situar o País nesse novo horizonte de possibilidades.

O governo federal e o empresariado aparelham-se para cumprir seus respectivos papéis. É fundamental que assim ocorra, tanto no plano interno quanto no externo. Mas é necessário ir além. A cidadania, o povo - detentor afinal em nosso regime da soberania - as nossas grandes regiões, os Estados da federação e os municípios alcançar condições de tomar posições próprias diante do processo econômico global. A imprensa cumpre função central no necessário processo de esclarecimento público. O mesmo pode-se dizer da universidade.

Devem-se discutir muito mais amplamente e com maior profundidade as modalidades de inserção brasileira na economia mundial. A ênfase deve ser posta nos evidentes benefícios da globalização, mas também nas maneiras de defendermo-nos das tendências perversas, nos modos de superar os efeitos adversos e excludentes. As decisões de hoje significarão a prosperidade ou a pobreza nas próximas décadas. Significarão um meio-ambiente sadio ou degradado e um país integrado ou dilacerado por problemas econômico e sociais.

Temas como a localização geográfica dos investimentos, a opção entre seus variados tipos (industrial, agrícola, no campo dos serviços, como o lazer), os rumos que toma a questão do emprego, as necessidades em matéria de ciência e tecnologia devem figurar claramente no topo da nossa agenda de debate nacional

Ao articularmos nossa visão do futuro, não deveríamos imaginar o Brasil como um país pelas metades: um possível país de economia desenvolvida mas imaturo politicamente; um país próspero em certas áreas e empobrecido em outras; rico mas injusto, socialmente em crise ; que preservasse o meio ambiente mas que sua economia não se desenvolvesse (ou vice -versa); e com presença e influência em certos foros internacionais decisórios, mas não em outros.

É seguro que o processo de globalização econômica e de globalismo político, que até hoje se nutre de seletividades, seria impiedoso com um país que assim se programasse. Os cavaleiros do apocalipse - a fragmentação, a desintegração, a exclusão e a vulnerabilidade - ainda caracterizam o nosso tempo. Não seria lícito esperar que o funcionamento do mercado e a automática operação dos mecanismos de poder internacional necessariamente desalojem da sela esses agentes apocalíticos, no horizonte provável de nossas vidas.


*Embaixador e Secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência da República.
(Publicado no jornal ¨O Globo¨, em 08/04/96)
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