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HISTÓRIA, GLOBALIZAÇÃO E PODER

HISTÓRIA, GLOBALIZAÇÃO E PODER


Ronaldo Mota Sardemberg *

A pós-modernidade relança em grande estilo a questão da história. A par de seu interesse específico, as teorias pós-modernas funcionam como uma espécie de ante-sala cultural da macro-tendência em que se converteu a globalização econômica. Têm, pois, amplo impacto e merecem ser acompanhadas de perto.

Na verdade, não são fáceis os tempos da globalização. O passado é visto como obsoleto, sem interesse. O presente encerra, ao mesmo tempo, esperanças e inquietações e o futuro aparece como essencialmente incerto, inexistindo uma visão consensual de como construí-lo, em escala planetária.

A história mantém em aberto a questão do poder internacional. Ao indicar chaves para o futuro, implícita ou explicitamente questiona a distribuição atual de forças e estabelece obrigações morais, políticas e intelectuais que funcionam como parâmetros para a ação.

Uma forte corrente do pensamento contemporâneo, estudada, entre outros, por David Harvey, insiste, porém, em que está superada a "retórica da temporalidade", - ou seja a ênfase moderna na história. Agora, o que deve importar na ordem internacional é uma noção muito precisa de espaço, que vai implicar em última análise o abandono da história.

Na visão pós-moderna, o espaço seria homogêneo ou, pelo menos, seria tratado de maneira muito mais homogênea que anteriormente. Ao mesmo tempo que procura dispensar ou anular os conceitos vinculados às fronteiras territoriais, assim como a premissa de que subsiste uma variedade de sociedades, o pós-moderno privilegia a comunicação, os media e os transportes integrados,- estes grandes simplificadores contemporâneos - como determinantes do significado do espaço.

O pós-moderno rejeita o que lhe é temporal ou espacialmente externo. O conceito do homem, como portador universal de direitos específicos à pessoa, se mantém apenas como retórica, pois a sociedade pós-moderna não alcança a universalidade. Todos os velhos regimes, a "belle-époque", os fundamentalismos religiosos são por ela excluidos como arcaicos, o mesmo ocorrendo como as áreas semi-coloniais ou pós-coloniais. Além disso, o pós-moderno confina a preocupação com a ecologia ao quadro estrito da natureza e se implanta - triunfalmente, como diz Frédric Jameson -, quando e onde esses processos de rejeição, contenção ou obliteração forem levados a cabo.

A pobreza ideológica dessa visão, que se coaduna com a tendência à "globalização seletiva", contrasta vivamente com o pensamento histórico deste século. No final dos anos vinte, Ortega y Gasset , por exemplo, em A Rebelião das Massas, insistia, de acordo com os cânones da modernidade, em que a "história é a realidade do homem. Não há outra. Nela (o homem) chegou a fazer-se tal e como é. Negar o passado é absurdo e ilusório..." e Valéry, em texto breve mas visionário, em Regards sur le monde actuel et autres essais assinalava que "a história é o produto mais perigoso que a química do intelecto (já) elaborou".

Valéry lista as propriedades da história, tudo aquilo que, como percebemos, a faz subversiva de qualquer ordem que se pretenda universalizante. A história faz sonhar, enerva os povos, engendra falsas recordações, exagera suas repercussões, pereniza velhas chagas, atormenta a tranqüilidade, conduz ao delírio das grandezas ("grandeurs") ou da perseguição, e torna as nações amargas, soberbas, insuportáveis e vãs.

Acredito que o princípio dinâmico da liquidação ou desvalorização da história, uma operação intelectual como qualquer outra, seja a descrença em que esta ainda nos possa oferecer lições. Assevera-se, hoje, com alguma pressa que a demografia, a política, a economia, a ecologia e a tecnologia mundiais sofreram tais transformações que o exame do passado se teria tornado irrelevante. Exclui-se, conseqüentemente, que sirva de quadro para a reflexão informada sobre o futuro e mascara-se a incerteza global que é fruto do tumulto contemporâneo.

No entanto, é certo que a história tem lições fundamentais a dar. Ainda Valéry, em que pese seu declarado ceticismo, recordava que na época dos Césares o que ocorria em Pequim, ou na de Napoleão o que sucedia na Zambézia, valia - para a Europa, bem entendido - como se acontecessem em outro planeta. E concluia, já nos anos vinte, que todos os temas políticos se encadeiam e que cada acontecimento toma de imediato uma pluralidade de significados simultâneos e inseparáveis. Acrescentava, lapidarmente, que os fenômenos políticos de nossa época se complicam por mudanças de escala e na ordem das coisas.

Se esses desenvolvimentos eram perceptíveis àquele tempo, o que dizer da atualidade, ou seja, na vigência da revolução na tecnologia das comunicações ? Passadas três gerações, acompanhamos, no cotidiano e de forma minuciosa, tanto a evolução política e econômica da China, quanto os sucessos africanos. Nada no mundo escapa à atenção. A Zambézia, até há pouco, esteve muito presente na imprensa nacional, em função da cruel guerra civil moçambicana e da presença de forças brasileiras de paz em Mocuba, integrando os contingentes das Nações Unidas. Mais recentemente, os olhos se voltaram para a chamada região dos Grandes Lagos africanos, não muito distante da Zambézia.

Enquanto a China surpreendentemente caminha a passos largos para ocupar, no próximo século, a posição de primeira potência econômica mundial, o que sugere uma nova fase no desenvolvimento capitalista, na África os dramas humanos se sucedem. São as seqüelas do colonialismo, e vão desde a pobreza crônica até as horríveis manifestações de violência e genocídio em Ruanda e Burundi. Colocam questões cruciais - ainda não equacionadas - que envenenam a ordem moral e política de nosso tempo e põem em dúvida as perspectivas de avanço econômico em escala verdadeiramente global.

Existem, contudo, outras lições históricas, claras e igualmente importantes. Estas não apenas apontam para a mundialização e a desterritorialização dos eventos, mas também, de forma precisa embora contraditória, para a localização de cada acontecimento em seu espaço geográfico e nos âmbitos político, econômico e cultural.

A história demonstra todos os dias a falsidade das simplificações e homogeneizações: relativiza o status quo, e explicita o desaparecimento das mais sólidas formas políticas - o Império romano e a URSS, por exemplo - e a transformação das crenças e religiões.

Não é nova sequer a relativização das hegemonias. Desde o século XVIII, descobriu-se que o progresso das sociedades em direção à grandeza nacional não é mais natural do que seu inevitável retorno à fraqueza e obscuridade. Aos olhos pós-modernos, tudo o que se disse antes pareceria "antiquado", pois se aplica a distintas situações no passado e na atualidade, e têm valor próprio para a construção do futuro.


*Embaixador e Secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência da República.
Publicado no jornal "O Estado de São Paulo" de 21 Fev 97.
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