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A INTEGRAÇÃO ECONÔMICA E OS INTERESSES DA GLOBALIZAÇÃO  


Márcio Rogério Silveira (1)   

 

"Quando se fala em mundo, está se falando sobretudo, em mercado que hoje, ao contrário de ontem, atravessa tudo, inclusive a consciência das pessoas."
 
                                     Milton Santos
 

 

A integração entre os povos, tem dado-se desde os primórdios, abarcando um processo crescente, mas logo após a Segunda Guerra mundial, tal integração intensifica-se para um desenvolvimento mais rápido e seguro, primordialmente , para a recuperação da Europa, que encontrava-se destruída. Assim a década de 50 é o marco inicial dos processos de integração econômica, ocorridos na Europa, como formação da CEE (Comunidade Econômica Européia).

A Integração econômica é definida como um novo espaço econômico que procura ampliar as fronteiras existentes entre dois ou mais Estados nacionais com o objetivo de desenvolver a livre circulação de bens e serviços dentro da área integrada. Assim, poderá haver um maior funcionamento do livre comércio, onde os Estados nacionais deixam de ser fracionados, passando a formar uma dimensão mais ampla, havendo mais cooperação, coordenação e maior harmonização para que os fatores da produção possuam livre circulação, acentuando-se o estabelecimento de uma nova divisão territorial e social do trabalho entre os membros participantes.

A integração prevê a redução das restrições governamentais, causada pela mudança na política governamental, onde eliminam-se cotas, reduzem-se tarifas e se favorece à cooperação internacional.

Com a integração, formam-se grupos regionais de nações que, após transcorrido um período de transição, ocasionam a diminuição dos obstáculos governamentais, favorecendo assim a redução das barreiras entre si, até que se possa chegar a eliminação completa. Após a eliminação das barreiras alfandegárias entre os participantes ocorre a formação de um bloco econômico, sem restrições comerciais,  que irá estabelecer tarifas e outros instrumentos de comércio com o “resto do mundo”.

Na prática, observou-se  em vários estudos realizados, que a formação de um acordo de comércio preferencial entre  blocos de Estados nacionais, tende a aumentar o comércio entre eles. Logo,  se as barreiras estiverem eliminadas, poderá ocorrer um forte aumento do comércio entre os participantes, levando à abertura da economia.

As teorias mais recentes sobre o processo de integração estão diretamente relacionados à teoria do comércio internacional, destacando-se a importância das empresas no processo de decisões, principalmente as transnacionais, em relação à difusão de inovações e invenções, que intensifica uma nova tendência, no cenário econômico mundial, apontando para um sentido bem definido: o da crescente globalização dos círculos produtivos, comerciais e financeiros 2, que servem como pano de fundo para a reanimação do capitalismo.

A tendência do comércio internacional, indica o predomínio de produtos manufaturados  (principalmente os de alta tecnologia 3)   entre países industrializados. Assim o mercado mundial é dominado pelas grandes corporações, sendo que os países de localização destas empresas encontram-se nos  países mais ricos do mundo.

O padrão de comércio pode ser influenciado pelo comportamento estratégico das empresas, tornando-as mais competitivas. Esse fator proporciona uma capacidade inovadora dos produtos, obtendo então aumento nos rendimentos e diferenciação dos produtos, com isso o Estado nacional não é mais o único local de localização das indústrias, pois podem surgir incentivos para a concentração dos setores de economias de escala 4   em outras regiões. “A su vez, podríam ocurrir equilibrios múltiples que dependen esencialmente de la relación entre los costes de producción y las barreras comerciales” (OLIVEIRA, 1993: 37).

As empresas que entram em novos mercados, levam consigo uma nova capacidade; o desejo de ganhar parcela significativa desse mercado e freqüentemente recursos substanciais, levando a queda dos preços ou inflacionando os custos dos participantes, reduzindo assim a rentabilidade. O sucesso das empresas entrantes depende primordialmente das barreiras de entrada existentes e da capacidade dos concorrentes já existentes, Contudo, através do processo de  integração, há poucas barreiras de entradas, dependendo mais então da retaliação acirrada que os concorrentes locais irão impor sobre os recém-chegados. No entanto, quando estas empresas entrantes são empresas globais 5 , o concorrente local poderá sofrer um forte impacto, por não encontrar uma melhor posição para se defender contra as forças competitivas globais.

O desenvolvimento está centralizado nos países avançados, onde podemos avaliar que o fator tecnológico está intrinsecamente relacionado ao fator de produção, sendo que as grandes empresas nestes países conseguem obter maiores lucros, por desenvolverem novas técnicas, além do que as  empresas inovadoras recebem concessões de subsídios, portanto essa proteção pode constituir uma via de auxilio para as exportações, entrando nos mercados estrangeiros em desigual nível de competitividade.

Por outro lado, a teoria integracionista acredita, que a entrada de produtos inovadores, principalmente nos mercados de países subdesenvolvidos colaborará, para que as empresas nacionais incrementem suas vendas a custa dos competidores estrangeiros.

Com a formação de blocos econômicos envolvendo países subdesenvolvidos, o que observamos é  uma maior abertura dos seus mercados, ocasionando uma homogeneização de regras quanto ao tratamento a ser dado aos investimentos estrangeiros, e extinção dos subsídios para proteger as indústrias nacionais da concorrência internacional. Também o que se pode notar é que há falta de integração entre estes países em diversos setores nacionais, bem como uma desintegração no setor social havendo enormes segmentos marginais (coloca-se aqui como exemplo dentro da sociedade brasileira, o caso dos sem-teto 6 , os sem-terra e por grande influência da globalização os sem-emprego) que não participam da vida econômica, social e política do país.

A integração, na realidade, não afeta por igual todas as partes de um país. “Num contexto de livre jogo há uma tendência que os centros comerciais e industriais drenem as suas periferias atraindo para si os capitais, força de trabalho mais jovem e concorrência com as áreas de periferias em termos de mercadorias. Assim os benefícios dos centros se daria em detrimento das áreas periféricas” (LINS,1996). Então podemos observar, como no caso do Brasil, que possui uma região pobre (Nordeste), em contraste com uma região rica (Sul).

O Brasil, como outros países subdesenvolvidos, está deixando a globalização tal como ela é, entrar no país, em vez de  deixar a sociedade civil escolher qual a melhor alternativa, qual a melhor forma de integrar-se a uma sociedade internacional que torna-se  cada dia mais globalizada.

Com a dissolução do Bloco Soviético 7  e o fim do Pacto de Varsóvia, em  fins dos anos 80, rompe-se o principal entrave que segurou, por vários anos, a consolidação do escopo neoliberal: a implantação da globalização em todo o planeta 8, tendo agora, um grande mercado consumidor e de mão-de-obra qualificada e barata.

“O mundo entrou em um novo ciclo de desenvolvimento do capitalismo. É evidente que o capitalismo mais do que antes, se globalizou é evidente que o capitalismo se transformou, mais do que antes, num modo de produção global. Mais do que antes não só porque abriu novos espaços, mas porque o desenvolvimento das corporações transnacionais acabou com as fronteiras. E as fronteiras não são simplesmente geográficas, mas ideológicas, culturais, civilizatórias. As corporações transnacionais arrasaram com isso. O mapa do mundo de ontem não funciona mais e agora está sendo construído um outro mapa do mundo” (IANNI,1996: 02).

Diante disto, percebemos que as grandes empresas de países preferenciais, como o Grupo dos Sete, procuram estimular o “globalismo”, unindo-se em torno de interesses preferenciais, para um mundo sem fronteiras, onde, as grandes empresas, passam a não ter nacionalidade (transnacionais), aproveitando-se da multiplicação de novas tecnologias, para exercer múltiplas vantagens, sobre as industrias de outros países.

Hoje os países subdesenvolvidos e exportadores de matérias primas, tendem a realizar privatizações, colocando suas indústrias estatais nas mãos de consórcios internacionais, aumentando, sobretudo, o desemprego. O desemprego acentua-se também pela quebra das industrias nacionais, sendo que a abertura das fronteiras traz indústrias internacionais, e produtos em condições de desigual competitividade com as nacionais, acentuando o desemprego.

O desemprego estrutural, acentua-se assustadoramente com esta nova etapa do capitalismo 9, que vem com a globalização, sendo muito mais cruel que as anteriores, dificultando até mesmo a capacidade de  organização dos trabalhadores em busca de alternativas capazes de estabelecer o equilíbrio. A nova intensificação de tecnologia internacional criou um  cruel processo de desemprego. Tendo grande importância neste fator a chamada “automatização”, na qual a máquina  adquire uma maior autonomia na realização de tarefas elementares, e o trabalho se torna mais indireto, limitando-se à supervisão, etc. assim as fábricas robotizadas não precisam mais de tantos operários, e os escritórios informatizados podem dispensar grande parte dos funcionários especializados, afetando diretamente toda a população, principalmente as menos favorecidas.

O adjetivo “Global”, surgido no começo dos anos 80, nas grandes escolas de administração de empresas dos Estados Unidos, e que em pouco tempo invadiu o discurso neoliberal, procura designar uma nova tendência onde as grandes empresas procuram delegar parte de seu poder a suas filiais espalhadas pelo mundo, para melhorar sua eficiência, especializando sua produção no mercado local através das multinacionais, e levar seus produtos industrializados aos mais longínquos lugares,  onde a concorrência deva se dar ao nível global.

A palavra chave nesta nova fase do capitalismo é  “adaptar-se”, as novas exigências e obrigações, a qual a sociedade é submetida, já que a globalização, é expressão das forças de livre comércio, onde os produtos gozem  de livre circulação, e onde todos os campos da vida social, devam ser submetidos à valorização do capital privado. Contudo é interessante acreditarmos que podemos resistir, ao invés de nos “adaptar" às novas  exigências e obrigações que ela exige.
 


NOTAS

1 Aluno de Graduação do Curso de Geografia da Universidade do Estado de Santa Catarina –UDESC e bolsista do CNPq.

2 “O mais forte dentre os poderes privados que tendem a regular os setores essenciais da vida internacional é provavelmente o setor financeiro (bancos, sociedades de investimento, companhias de seguro, cambistas) e notadamente o setor bancário, que assegura o essencial dos empréstimos internacionais e desempenha nos domínios monetários e financeiro um papel ainda mais importante que o do FMI” (BADIE & SMUTS, 1992: 137) apud (SANTOS, 1996: 167).
“Cada vez que se troca 1 dólar de mercadoria, trocam-se 40 dólares no mercado financeiro. O que é feito dos 39 dólares que restam” (SANTOS 1996: 166).

3 É a sistemazação dos conhecimentos e das técnicas que permitem a indústria realizar concretamente uma produção. O grau de aperfeiçoamento do produto.

4 Referem-se aos declínios nos custos unitários de um produto (ou operação ou função que entra na produção de um produto), à medida que o volume absoluto por período aumenta.

5 As empresas globais são subordinadas a uma estratégia de conjunto e adaptadas as novas condições da concorrência. O
centro de controle destas empresas passam a ser descentralizados submetendo-se a um comando que é integrado
mundialmente, tanto para criação e fabricação como para a distribuição dos produtos.

6 O Brasil é com certeza o país que melhor se adapta ao modelo de produção familiar no campo, mas para isso é preciso
mudar a realidade dos números injustos que apresenta o país em relação ao campo: 1.8 Bilhão de quilômetros quadrados de
terras agricultáveis estão sendo usadas indevidamente como pasto, e para que esse quadro mude é preciso uma reforma agrária ampla.Dados da ONU mostram que para assentar uma família no Brasil seria necessário em torno de US$ 15 Mil, para gerar uma renda superior a 3 salários mínimos. Em nenhum outro setor da economia brasileira se teria um retorno tão satisfatório com um investimento de US$ 15 Mil.

7 A URSS não conseguindo suportar a disputa com os Estados Unidos, no campo da Guerra Fria pela sofisticação de
equipamentos militares, a URSS sede às presões e aceita ajuda externa, implantando a abertura e tirando do Estado o controle
sobre a economia (Glasnost e Perestroika), dando iniciativa a desestruturação de um mundo Bipolar e rumando para outro
sistema, onde a globalização deixa de ter um papel coadjuvante para exercer o papel principal na nova ordem mundial.

8 “(...) a mais-valia no nível global contribui para ampliar e aprofundar o processo de internacionalização que alcança um novo
patamar. Agora se mundializa: a produção, o produto, o dinheiro, o crédito, a dívida, o consumo, a política e a cultura. Esse
conjunto de mundializações, cada qual sustentado, arrastando, ajudando a impor a outra, merece o nome de globalização”
(SANTOS,1996: 163).

9 A nova fase do capitalismo, podemos chamar de capitalismo financeiro, onde a globalização apresenta-se como fundamental
etapa para a aceleração de grandes concentrações de capitais, originando grandes conglomerados econômicos.  


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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IANNI, Octávio. Teorias da Globalização. In: Cadernos de Problemas Brasileiros. Revista de Problemas Brasileiros. n. 318, nov-dez/1996.
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LINS, Hoyedo Nunes. Palestra realizada na Faculdade de Educação.  Florianópolis: UDESC, 1996. (Fita de vídeo – VHS).

LIPIETZ, Alain.  Audácia: uma alternativa para o século XXI. Tradução de Estela       dos Santos Abreu.  São Paulo: Nobel, 1991.

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