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GLOBALIZAÇÃO DAS FINANÇAS:   UM  MAL INEVITÁVEL?
 
João Ricardo Santos Torres da Motta

As recentes transformações econômicas, motivadas pelo processo de globalização e integração das economias, aumentaram enormemente a importância dos mercados financeiros. As inovações financeiras, a desregulamentação e as novas tecnologias deram a estes mercados um caráter global que afeta de forma determinante o comportamento econômico das principais nações industriais.

A globalização das finanças nos anos 80 foi um fenômeno revolucionário. Não sem razão, este processo vem gerando grandes preocupações para os governos dos principais países desenvolvidos. A reação aos fatos caracterizou-se por uma certa dose de incompreensão do fenômeno, que até hoje persiste, principalmente porque as mudanças não decorreram de um único evento e não tiveram nem início nem um fim claramente identificáveis, além do que os fortes impactos gerados por estas transformações nas economias domésticas induziram uma percepção de que tais mudanças eram um fenômeno nacional, quando, de fato, eram um fenômeno internacional.

Se os aspectos de globalização relacionados a questões de comércio mundial são fáceis de perceber, porque produtores e consumidores compreendem o que é o comércio de bens e serviços, no que tange ao mercado de capitais, a dimensão da globalização ainda é vista de maneira misteriosa. As ações são conduzidas por poucos agentes especializados, através de telas de computadores, envolvendo enormes somas de dinheiro e, aparentemente, com pouca conexão com o mundo real. Mais importante ainda é que as economias parecem ser conduzidas ao sabor dos mercados, o que faz com que este mistério seja freqüentemente interpretado como uma ameaça.

Como pano de fundo para essas mudanças existem três fatores básicos que concorreram para direcionar o fenômeno da globalização: inovação, tecnologia e desregulamentação. Estes fenômenos tendem a agir de maneira conexa, cada um multiplicando os efeitos dos outros. Como resultado, tantos os mercados como os governos que os regulam tiveram pouco tempo para aprender. De fato, erros ocorreram e continuarão a ocorrer.  Um ponto importante, no entanto, é o de que as mudanças em questão ocorreram de modo extremamente rápido, com conseqüências muitas vezes perigosas. Outro ponto é que, de fato, não há como retroceder.

Se a diferença entre os sistemas financeiros dos países desenvolvidos ainda é muito bem destacada - Japão, EUA, Alemanha e Inglaterra têm estruturas bastante particulares - essa aparência de diversidade tem-se tornado superficial devido à globalização. Mesmo no passado, no entanto, as finanças domésticas dos principais países tinham características comuns:

i) o mercado para serviços financeiros era dividido em segmentos. Essa característica decorria ou de tradição ou por imposição do governo (EUA). A visão por trás disto era dar mais segurança e previsibilidade a um sistema sujeito a instabilidades através de regras de quem pode fazer o que e onde pode fazê-lo;

ii) em face do poder monopolístico decorrente da segmentação era fundamental o exercício de um controle pelos reguladores. Esse controle envolvia a determinação de preços/taxas de juros e restrições quantitativas/controles de crédito. Reclamações não existiam, uma vez que não se podia admitir que ocupantes privilegiados de segmentos pudessem fazer o que quisessem;

iii)como em sistemas controlados os preços não são bons veículos de informações, era necessário que, dentro dos segmentos, houvesse o desenvolvimento de uma cultura de "relacionamento" entre os fornecedores de serviços e seus emprestadores e tomadores.  O custo de eficiência econômica dos controles e do mercado segmentado poderiam, então, ser reduzidos. Em troca havia a segurança do sistema;

iv) os governos garantiam, ainda, proteção contra competição estrangeira. De fato, controles de crédito e de preços seriam muito mais difíceis se poupadores e tomadores tivessem acesso a fornecedores estrangeiros, menos regulados. Lucros seguros eram o retorno para a aceitação dos controles. A proteção era a base do acordo entre governo e fornecedores de serviços financeiros em todo o mundo.

A partir dos anos 70 e, mais rapidamente, nos anos 80, a organização das finanças baseadas nos princípios de segmentação, controles, relacionamento e proteção ruiu. De fato, os segmentos foram invadidos por novos participantes, controles domésticos foram eliminados ou drasticamente reduzidos, a cultura de relacionamento deu lugar à securitização e outros mecanismos financeiros baseados em preços.

Diante disto, surge uma questão básica. Que forças levaram a essas mudanças e à expansão das finanças globalizadas? Respostas óbvias, mas não necessariamente corretas seriam desregulamentação e redução dos controles sobre os fluxos de capitais. Sob essa visão, as mudanças foram orientadas pelos governos para revogar a ordem financeira vigente. Orientações pró-mercado e liberalizantes, em moda nos anos 80, foram os iniciadores do processo.

Esta versão é muito simplista. Na realidade, a desregulamentação pode ser vista como conseqüência e não exatamente como causa do processo. Em sistemas onde a regulamentação distorce preços, criando oportunidades de lucro, regras são, de uma maneira ou de outra, burladas. A desregulamentação é freqüentemente um reconhecimento de que as regras não mais funcionam.

Em uma visão mais dinâmica, pode-se concluir que a base do processo está na interdependência entre comércio, finanças internacionais, inovações e desregulamentação. De fato, quando o comércio expande, elevam-se os fluxos de capitais a ele associados. Por outro lado, mercados mais desenvolvidos para o capital internacional facilitam o comércio pelo melhor acesso ao crédito por exportadores e importadores. Há, portanto, um efeito multiplicador entre finanças e comércio.

Por outro lado, as oportunidades de lucro criadas pela regulamentação levaram a inovações no sentido de expandir as finanças "offshore". Um exemplo foi o surgimento dos EUROMARKETS. As inovações tendem a expandir as finanças internacionais. Com esse crescimento, aumenta a competição com bancos domésticos levando a posteriores inovações. Funciona um segundo efeito multiplicador;

Por fim, os regulamentadores, inicialmente, tentam resistir ao processo, mas, em geral, atuam com atraso, devido ao fato de o dinheiro ser muito "arisco". Um terceiro multiplicador atua, portanto, contra os regulamentadores. Instituições financeiras de paises com regulamentação mais forte passam a sofrer competição desvantajosa e fazem lobby pela desregulamentação. A expansão das finanças, do comércio e das inovações ainda geram maneiras mais eficientes de fugir aos controles. Nos dois sentidos a expansão das finanças provoca a desregulamentação, que evidentemente provoca a expansão, fechando o círculo. Esse foi o mecanismo básico que desmoronou o esquema anterior.

As condições macroeconômicas dos anos 80, entretanto, aceleraram substancialmente esse processo. A política do primeiro governo Reagan combinou política fiscal frouxa com política monetária apertada, gerando elevação de taxas de juros e apreciação do dólar. Isto levou à geração de um forte déficit em conta-corrente para os EUA, e pelas mesmas razões, elevados superavits para Japão e Alemanha. Esta elevação de desequilíbrios na conta-corrente entre as três maiores economias provocou correspondente elevação dos fluxos de capitais entre essas economias. Além disso, as flutuações bruscas do dólar ao longo da década elevaram a necessidade de proteção contra a volatilidade das taxas de câmbio induzindo rápidas inovações no sentido de melhorar o gerenciamento dos riscos financeiros e cambiais. Finalmente, a elevação das taxas de juros e da volatilidade financeira no período elevou os ganhos com a evasão da regulamentação doméstica, criando um forte incentivo para a desregulamentação.

Um outro forte fator de estímulo ao processo foi o desenvolvimento da tecnologia, em particular dos computadores e sistemas de comunicação, criando a possibilidade de se efetuar transações financeiras 24 horas por dia, em um mercado verdadeiramente global. Isto levou, ainda, a um rápido declínio da cultura de "relacionamento", uma vez que as informações podiam ser rapidamente processadas, reduzindo as incertezas.

Obviamente, o fator político também contribuiu para a aceleração do processo, na medida em que tanto nos EUA, como na Inglaterra, assumiram governos menos intervencionisatas, a favor da desregulamentação. Todos esses fatores combinados terminaram por forçar medidas semelhantes em outros países, de orientações políticas até mesmo muito menos liberais.

A globalização das finanças, se inevitável, é motivo de grande preocupação para os regulamentadores. Em particular, há um claro balanço entre custos e benefícios. Os benefícios são uma maior eficiência na alocação de recursos, maior flexibilidade e maior competição. Os custos são maior instabilidade econômica e perda de controle das políticas macroeconômicas. Aparentemente, os mercados estão suficientemente integrados para propagarem os custos mas não tão integrados para distribuírem os benefícios.

A questão fundamental que surge é se as mudanças reduziram ou elevaram o risco de uma crise econômica. Permanecem ainda muitas dúvidas sobre a forma de se conduzir políticas econômicas consistentes com a globalização das finanças, em particular de como evitar uma crise financeira que possa ser transmitida internacionalmente. A rapidez das inovações tende a elevar ainda mais a distância entre regulamentadores e a realidade. O grande desafio é compatibilizar eficiência com estabilidade.

Pesquisadores e regulamentadores mergulham sobre o problema e suas conclusões ainda não são alentadoras. Isto, no entanto é tema para outro artigo.