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O SUJEITO DA RECUSA EM TEMPOS DE GLOBALIZAÇÃO

Fernando Cesar Rodrigues Cavalheiro

 

 

"O homem civilizado colocado em meio ao caminhar de uma civilização que se enriquece continuamente de pensamentos, de experiências e de problemas, pode sentir-se ‘cansado’ da vida, mas não ‘pleno’ dela. Com efeito, ele não pode jamais apossar-se senão de uma parte ínfima do que a vida do espírito incessantemente produz, ele não pode captar senão o provisório e nunca o definitivo".

                                                                                             Max Weber

 

Na era da globalização, paradoxalmente, chama atenção o isolamento do sujeito. Imerso na dualidade da tradição, ora pretende ser aí o vencedor ora daí se retirar. Globalização, essa palavra fácil, união da comunicação mas separação do sujeito, diz respeito à identidade, uma pretensa unidade que não suporta a diferença. Por isso, ela rima com exclusão. Porém, quem é excluído? Na extensão da resposta corre-se o risco de perder-se a certeza dos lados.

A clareza da comunicação oculta a névoa que perpassa a consciência. A comunica- ção satura o espaço e revela o vazio das palavras que sofregamente tentam dizer al- go, fazer algum sentido. Mas o sentido foi substituído pela vivência, essa experiência solitária que es- tranhamente habita a comunicação. Comunicação entre surdos, que são soterrados nos escombros de informações, vomitadas antes de qualquer elabora- ção.

Na paixão, o sujeito prescinde do objeto. Ele é um apaixonado a priori, o outro é mera conseqüência, mutável, descartável. A existência desse sujeito viabiliza o espaço virtual. De seu esconderijo ele emite sons captados por satélites, e as palavras se tocam, se ena- moram, independentes do sujeito que as emitiu. No amor o outro é essencial, pois que este somente surge na relação e a posteriori. Pressupõe a presença e a permanência, num lugar em que a palavra não comunica mas nomeia. O sujeito de hoje, até parecido com o da tradição, é um ser apaixonado. Narcisicamente apaixonado, que fez da comunicação seu escudo, por trás do qual goza com seu próprio discurso. Numa primeira aproximação o excluído é o objeto, o outro.

Assemelhando-se à ciência o outro é objeto de experiência, a  distância. Mas não há nessa experimentação o desejo de analisar o ob- jeto, nem muito menos desvelar a sua verdade. Uma melhor visada nos permite ver que aí não há uma experimenta- ção mas uma demonstração. Nos moldes de um teorema, existe uma verdade que deverá ser demonstrada numa exposição — a idéia da negação, do não absoluto: "Ora, essa idéia de algo que não está, essa idéia do não ou da negação, que não é dada nem possível de ser dada na experiência, só pode ser objeto de demonstração" (1). Nessa demonstração o que se visa é a soberania da razão, isto é, a exclusividade do sujeito, que faz da razão seu instrumento, não para possuir o objeto, como na ciência, mas para destrui-lo. A tática não é mais de dominação mas de aniquilamen- to. A dominação, fruto do conhecimento que tem na ciência a sua mais apurada ex- pressão, radicaliza-se. Quando então não se suporta o outro nem mesmo dominado é pre- ciso eliminá-lo. A vontade que ainda quer nesse sujeito é a vontade de nada. O homem reativo não suportou ter Deus como testemunha de seu niilismo e o elimi- nou. Agora, o último dos homens, seqüência da série, não suporta um espelho que lhe revele a diferença, que po- deria fazê-lo voltar a querer. Ele está cansado de querer.

O sujeito da ciência visa fazer da natureza o palco de suas experiên- cias, para daí retirar-lhe a verdade. Verdade da natureza, de Deus, da vida ou... um sentido. Essa é sua convicção. O sujeito da recusa, globalizado, visa destruir a natureza para provar que por trás o que existe é o nada. Ele é tomado por uma "idéia de uma natureza primá- ria, portadora da negação pura, acima dos reinos e das leis, e que seria inclu- sive liberada da necessidade de criar, de conservar e de individuar: sem fundo além de qualquer fundo, delírio original, caos primordial feito unicamente de moléculas furiosas e dilacerantes"(2). Esse sujeito pretende o ilimitado. Porém, o nada não se apresenta, no máximo se representa: "Mas essa natureza original, precisamente, não pode ser dada: só a natureza segunda forma o mundo da experiência, e a negação só é dada nos processos parciais do negativo"(3). Essa sua interdição, que o re- mete a repetir infinitamente a demonstração, na ilusão de alcançar o nada e festejar a vitória da razão enlouquecida. Já podemos ver a insatisfação que atormenta esse sujeito.

O único ilimitado que consegue é a ilimitada repetição da experiência demonstra- tiva. Há nesse processo uma cadeia, a cadeia do gozo. Mas de um gozo sem prazer pois que sem saciedade, sem plenitude. O desejo, que é desejo de nada, utiliza-se do objeto para gozar na sua destruição que faria aparecer o nada, a suprema dilui- ção da vida. O gozo sádico, que Sade nos apresenta em seus escritos, nos dá a di- mensão das cenas que se repetem num gozo ininterrupto que nunca sacia. A cadeia sádica encena-se hoje, por exemplo, no conluio da economia com a política. O mer- cado e os políticos se põem numa cadeia em que a reversibilidade dos papéis con- funde o observador desatento. Aqueles se dizem incluídos. O dinheiro e o poder são o valor, o valor de nada, que ao invés de levá-los à plenitude, remete-os, com toda força, ao vazio, fazendo-os reiniciar a cadeia. O último homem deseja a morte por cansaço. A opção, assustadora, que nos é apresentada é a de entrar nessa cadeia ou a exclusão. Qual o maior suplício? Não é à toa que o estresse é o mal atual. Aceite o convite de Sade ou então...

Na cadeia sádica é proibida a fertilidade. A mulher está como puro objeto para a afirmação da morte e não para qualquer sinal de vida. Em A Filosofia da Alcova a mãe é subjugada, torturada, destruída em seus valores e abandonada. A filha é a iniciada no ritual sádico, lugar em que terá que se submeter à Dolmancé, o professor responsável pela demonstração dos passos e do objetivo do ritual. Ela é objeto de demonstração, e o objetivo é a destruição da natureza a partir de seus representan- tes.

A maneira de excluir o pai, a natureza moral, é, inicialmente,  aliando- se a ele para a seguir seduzi-lo, pelo poder e pelo dinheiro, a colo- car-se acima da lei. Ao suspen- der a lei em troca do gozo ininterrup- to, ele torna-se o agente da anarquia, do gozo do nada. Ele que pretende, na esperteza, ser o último, não se dá conta que a corren- te se fecha e ele passa a ser o primeiro. Se é inevitável, goze. Deleuze tinha razão em afirmar que a serpente, com seus anéis, é o animal que melhor representa a a- tual sociedade(4).

No manifesto aos franceses, no quinto diálogo da obra acima citada, Sade propõe a revolução permanente. Nesta proposta explicita-se a repetição e a aceleração. O movimento contínuo voltando ao mesmo ponto, sem mudança, destitui toda e qual- quer forma, toda e qualquer permanência. É um puro devir, que desestabiliza tudo que é. Mas não destrói os valores, faz pior, destrói o plano onde esses valores são inscritos. O plano de imanência se dissolve no ar, ou se constitui numa geléia, im- possível de se fixar qualquer coisa. Os valores flutuam sem morada. Com isso, a vontade de nada os embaralha, os confunde, fazendo com que o mal não tenha mais a cara do mal nem o bem a do bem. O que falta hoje não são valores, esses, os temos de herança, mas falta o plano de inserção dos valores que, numa espécie de ilusionismo, nos foi retirado. A ilusão opera na aceleração do movimento e na repe- tição do mesmo, em que só vemos a nós mesmos onde quer que vamos e o outro é eliminado. A solução perversa não deixa de ser criativa. Não posso reconhecer o ou- tro que se encontra fora de meu raio de percepção. E caso ele se atreva a se inserir no tempo e no espaço, eu o elimino na indiferença dos sentidos, ou me divirto, por exemplo, queimando-o. O outro, de objeto de experiência, passou a objeto de de- monstração da loucura da razão, e com ela se nadificou. Assim se justifica a indife- rença com o outro ou sua eliminação. Eliminar o nada é nada eliminar. Nenhuma culpa. A principal característica da descrição sádica é a apatia, a frieza, o absoluto distanciamento, requinte da razão destacada do afeto.

A recusa da diferença hoje se apresenta não só na sexualidade mas em qualquer outro que objete o sujeito da identidade. Esse hermafrodita aprisionado em sua plenitude narcísica, mostra-se como uma caricatura do indivíduo, cheio de manei- rismos e máscaras, para dis- farçar seu falo inautêntico. Ao recusar o outro, o sujeito invalida a si mesmo, posto que não tem o tu que o identifique. Portanto, num segun- do momento é o sujeito que é excluído.

Para Jung o homem moderno é aquele que tem consciência de seu tempo: "Deve-se entender bem que não é o simples fato de viver no presente que faz alguém ser mo- derno, pois neste caso tudo o que vive hoje seria moderno. Só é moderno aquele que tem profunda consciência do presente"(5). O homem pseudomoderno, o outro a que Jung se refere, é a nova versão do homem reativo que salta por sobre o homem moderno e se apresenta como o novo, isto é, aquele que faz parte da corrente, ex- clamando enraivecido: "Sai da frente dinossauro! Sombra do passado que não pas- sa, mas que insiste em permanecer, a dizer que o que é não é, e o que não é é. Tudo é mais simples, basta pegar a felicidade e gozar".

Se o homem da idade média obedecia os desígnios de Deus, certo de que encontra- ria a felicidade no reino dos céus, o pseudomoderno obedece os desígnios do não Deus mercado, tendo a certeza da felicidade aqui na terra caso esteja incluído na nova ordem religiosa fetichista: "A religião tornou-se, em nossos tempos, ‘rotina quo- tidiana’. Os deuses antigos abandonaram suas tumbas e, sob a forma de poderes im- pessoais, porque desencantados, esforçam-se por ga- nhar poder sobre nossas vidas, reiniciando suas lutas eternas"(6). Quem tem os fetiches tecnológicos encontra-se in- serido, novo eleito, e por alguns instantes acalma sua ansiedade. Não há mais nem o ve- lho e seguro fetiche. Ele é cambiável e dado, não é mais escolhido. Ambos os ho- mens respondem a um ser imaginário, sendo que ao primeiro cabe a felicidade eter- na, e ao segundo, a eterna felicidade passageira, renovada a cada aquisição, a cada nova dose, que lhe dá direito ao sonho, ao sonho de fuga.

Weber coloca a seguinte pergunta: "Qual é, afinal, nesses termos, o sentido da ciên- cia enquanto vocação, se estão destruídas todas as ilusões que nela divisavam o ca- minho que conduz ao ‘ser verdadeiro’, à `verdadeira arte’, `à verdadeira natureza’, ao `verdadeiro Deus’, `à verdadeira felicidade’"?(7) Hoje a ciência, com seu viés tec- nológico do fetiche, partiu solenemente para demonstrar que o caminho da felicida- de foi redescoberto. Redescoberto exatamente pela ilusão, o ilusionismo sofístico que afirma o mercado como o novo senhor, a nova porta da felicidade, e que com ele nada nos faltará, manipulando na retórica da propaganda a venda do sujeito ideal globalizado. A nova versão do herói é a do ilusionista. "Sob a influência dos pressupostos científicos, tanto a psique como o homem individual, e na verdade qualquer acontecimento singular, sofrem um nivelamento e um processo de defor- mação que distorce a imagem da realidade e a transforma em média ideal"(8). Os deuses se reergueram da tumba e o indivíduo se deitou. "O indivíduo, portanto, nes- se horizonte, possui uma importância mínima. É uma espécie em extinção"(9).

Jung descreve que, ao longo de nosso século, o indivíduo foi desaparecendo nas massas, em favor do estado que toma-lhe o lugar, reduzindo-o ao anonimato. Diz Jung que "quando o indivíduo, esma- gado pela sensação de sua insignificância e impotência, vê que a vida perdeu sentido — que afinal não é a mesma coisa que bem-estar social e alto padrão de vida — encontra-se a caminho da escravidão do Estado e, sem saber nem querer, se tornou seu prosélito"(10). Mas até aí, se o sujeito renuncia a julgar, um alguém coletivo se a- presenta em seu lugar. Hoje, retirou-se o lugar, só há um ninguém. Colocando a palavra mercado no lugar de Estado teremos a troca do disfarce da hipocrisia pela farsa do cinismo. O capital mostrou sua face, desnudo que ficou com a falência do Estado. A arrogância do mercado reflete o te- mor de sua exposição.

Os pseudoindivíduos crêem piamente numa nova ordem ritualística, submetendo-se aos "poderes impessoais, porque desencantados" a ponto de incorporá-los e travar essa batalha quotidiana impessoal de desaparecimento do indivíduo que se esvai numa rede de ilusões. A questão não é lamentar o desencantamento do mundo, mas sim o seu reencantamento através dessa rede, desse véu que aparvalhou o sujeito e fez com que, paradoxalmente, após cem anos de desco- berta e invasão do último refúgio desconhecido, o inconsciente, a consciência soberana soçobre num jogo de ilusões, perpetrado pelos deuses renascidos que levam a razão de volta ao mito, consti- tuindo um novo ciclo. Adorno assim se refere à relação do mito com a razão esclarecida: "Do mesmo modo que os mitos já levam a cabo o esclarecimento, assim também o esclarecimento fica cada vez mais enredado, a cada passo que dá, na mitologia"(11). E completa: "Quanto mais a maquinaria do pensamento subjuga o que existe, tanto mais cegamente ela se contenta com essa reprodução. Desse modo o esclarecimento regride à mitologia da qual jamais soube escapar. Pois, em suas figuras, a mitologia refletira a essência da or- dem existente — o processo cíclico, o destino, a dominação do mundo — como a verdade e abdicara da esperança"(12). O retorno ao mito não se traduz num saudosismo ou no retorno ao passado para resga- tar uma condição perdida como o neomisticismo propõe. O processo cíclico precisa da consciência exatamente como ela é, es- clarecida, prepotente e alienada, pronta para ser reencantada e manipulada.

A proposta de desencantar o mundo, de desmistificá-lo, parece que terminou no seu oposto. A consciência foi reencantada, e mais do que nunca, para além de Tróia, joga o jogo dos deuses. E pior, acredita ingenuamente que tem o controle sobre a guerra. Os deuses fizeram um pacto com os últimos homens, os pseudosujeitos da re- cusa. Enquanto os primeiros enfeitiçam o mundo e iludem a razão esclarecida, os segundos gozam na fantasia da eternidade indiferenciada. Se o uroboros é o princí- pio, o ciclo da vida e fonte inesgotável, o seu duplo, o ciclo da recusa, coloca-se a favor da morte, numa luta de destituição, de negação da vida, fazendo, paradoxal- mente, da razão esclarecida, sua principal adversária, agora encantada, o instru- mento para alcançar o fim.

No início do século Weber chamava a atenção para o sujeito que ali nascia: "O jo- vem norte-americano nada respeita, nem a pessoa, nem a tradição profissional, mas inclina-se diante da grandeza pessoal de qualquer indivíduo"(13). Hoje, criança grande e globalizada, esse sujeito não respeita nem questiona os valores. Ele sim- plesmente os ignora. Seu objetivo é o gozo, a diversão. O homem diversão reconhe- ce a sua falta mas a recusa. E o fetiche lhe é prontamente oferecido pelo consumo. Hipnotizado na recusa e ansioso pela próxima dose, compra em qualquer prateleira o fetiche do dia e acalma sua angústia, sua falta de sentido. Mas o homem moderno não se faz de rogado, e após remover o sentido de toda a tradição, e depois queimá- lo no princípio da ciência, oferece-nos, novamente... o sentido — se é que faz algum sentido falar dele — agora no jogo do consumo. Surge a necessidade do sujeito da recusa, peça fundamental da cadeia. Ele é o motor da insatisfação, da repetição, do querer definitivo. Personagem do quero mais, até o gozo supremo, o nada, a nega- ção total, a sua própria morte. O capital sempre encontrou suas soluções. Hoje ele oferece a felicidade, o fim da angústia, por alguns trocados, em troca do sacrifício do indivíduo. O mercado "representa uma camuflagem para todos os indivíduos que sabem manipulá- lo"(14) — a oligarquia que se esconde por trás do mercado, aliada a um estado mínimo mas de corrupção máxima. Retirou-se a incômoda palavra verdade, as outras foram destituídas como ranço metafísico, e sobrou a felicidade, outra palavra tornada fácil, vendida no camelô.

Mas como qualquer crítica para os dias de hoje, tempos tão felizes e promissores, parece viscosamente depressiva, ou pessimismo de frustração, podemos sonhar com uma saída ou na ação dos deuses da contingência ou na recusa à cadeia perversa, esta, a própria crítica. Assim, na era da globalização, paradoxalmente, chama aten- ção o isolamento do sujeito. Imerso na dualidade da tradição, ora pretende aí ser o vencedor ora daí se retirar...

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

1 - DELEUZE, GILLES. Apresentação de Sacher-Masoch. Rio de Janeiro: Ed. Taurus, 1983, p.30.

2 - Ibid., p. 29.

3 - Ibid., p. 30.

4 - DELEUZE, GILLES. Conversações. Rio de Janeiro: Ed. 34, pp.222-223.

5 - JUNG, CARL GUSTAV. Civilização em Transição, vol. X/3. Rio de Janeiro: Ed. Vozes, 1993, §149.

6 - WEBER, MAX. Ciência e Política como Vocação. São Paulo: Ed. Cultrix, 1972, p. 42.

7 - Ibid., p. 35.

8 - JUNG, CARL GUSTAV. Presente e Futuro, Vol.x/1. Rio de Janeiro: Ed. Vozes, 1988, par. 502.

9 - Ibid., par. 503.

10 - ADORNO, THEDOR. & HORKHEIMER, MAX. Dialética de Esclarecimento. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar Editor, 1994, p. 26.

11 - Ibid., p. 39.

12 - WEBER, MAX. op. cit., p. 43.

13 - JUNG, CARL GUSTAV. Presente e Futuro, op. cit., par. 504.

 

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